sábado, 11 de março de 2017

PAPA AO DIE ZEIT: SOU UM PECADOR, LIMITADO, UM HOMEM COMUM

Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco concedeu uma entrevista ao jornal Die Zeit de Hamburgo, na Alemanha. A entrevista foi realizada em italiano pelo editor-chefe do jornal, Giovanni di Lorenzo
O jornalista iniciou a conversa com o Pontífice ressaltando que se diz que o Papa tenha ficado fascinado, em Augsburgo, por um quadro de Nossa Senhora Desatadora dos Nós pintado por um artista barroco no século XVIII. Francisco respondeu que não é verdade, pois nunca foi a Augsburgo.
O repórter insistiu, afirmando que a fonte é crível. O Papa respondeu: “Os jornalistas são assim”, e sorriu. “A história é que uma religiosa que eu conhecia, me enviou um cartão de Natal com a imagem de Nossa Senhora Desatadora dos Nós. Eu vi e me interessei. O quadro retoma uma frase de Irineu de Lyon. O doador da obra enfrentava dificuldades com a esposa. Eles se queriam bem, mas alguma coisa não funcionava. Ele procurava o conselho de um sacerdote jesuíta. Esse padre pegou uma fita longa e branca que foi usada para a cerimônia do matrimônio e pediu a Nossa Senhora, porque tinha lido a frase de Irineu, que o nó de Eva foi desatado pela obediência de Maria. Então, pediu a Nossa Senhora para desatar esses nós”.
O jornalista então, prossegue: Os nós representam os problemas não resolvidos? “Sim”, responde o Papa. “O quadro foi pintado como ação de graças, porque no final, Nossa Senhora concedeu a graça ao casal"
Die Zeit: O número de sacerdotes diminuiu. Cada vez menos fiéis, e cada vez menos padres e muita coisa para fazer.
Papa Francisco: “É um grande problema. Na Suíça é pior, não? Muitas paróquias estão nas mãos de mulheres dedicadas que nos domingos conduzem as orações. É um problema a falta de vocações. É um problema que a Igreja deve resolver, procurar como resolver isso”.
Die Zeit: Como?
Papa Francisco: “Acredito que em primeiro lugar esteja o pedido que Senhor nos faz para rezar. A oração. Depois, o trabalho com os jovens que são os grandes descartados na sociedade moderna, pois  não têm trabalho em vários países. Para as vocações também tem um problema.”
Die Zeit: Qual?
Papa Francisco: "O problema da natalidade".
Die Zeit: Na Alemanha é baixa, mas não mais do que, por exemplo, na Itália.
Papa Francisco: "Se não há crianças, não haverá sacerdotes. Acredito que este é um problema grave que devemos enfrentar no próximo Sínodo sobre os jovens, mas não é um problema de proselitismo, não. Não se obtém vocações com o proselitismo".
O Papa destacou que em relação à vocação, é importante fazer uma seleção. “Hoje, temos muitos jovens que depois arruínam a Igreja, porque não são sacerdotes por vocação. O problema das vocações é um problema grave”, destacou.
Sobre a crise de fé, o Papa respondeu que não é possível crescer sem crises. “Na vida humana acontece o mesmo. O crescimento biológico sempre é uma crise, não? A crise de uma criança que se torna adulta. Com a fé é o mesmo. Quando Jesus sente aquela segurança de Pedro que me faz pensar a muitos fundamentalistas católicos, quando Jesus sente isso, o que lhe diz? Você irá me renegar três vezes! E Pedro renegou Jesus. A crise faz parte da vida de fé. Uma fé que não entra em crise para crescer, permanece  infantil.”
Die Zeit: Como se volta à fé?
Papa Francisco: “A fé é um dom. É doada”.
Die Zeit: Volta sozinha?
Papa Francisco: “Eu peço e Ele responde. Às vezes temos de esperar numa crise. A fé não se compra”.
Die Zeit: O senhor acredita que o ser humano por natureza seja bom, ou é bom e mal?
Papa Francisco: “O homem é imagem de Deus. O homem é bom, mas também o homem é fraco, foi tentado e se feriu. É uma bondade ferida”.  
Die Zeit: Mas pode tornar-se mau?
Papa Francisco: “A maldade é outra coisa, mais feia, mais feia. Na Bíblia, a narração mítica do Gênesis. Adão não foi mau: foi fraco, foi tentado pelo diabo. Ao invés disto, a primeira maldade é a do filho, de Caim: não é por fraqueza ou por... É por ciúmes, por inveja, por desejo de poder... é a maldade das guerras. É a maldade que hoje encontramos na pessoa que mata: mata o outro. Para mim esta é a maldade, porque é quem fabrica as armas”.
(...)
Die Zeit: Mas quais são os limites da oração?
Papa Francisco:  “Rezar pelas coisas boas. Por exemplo: “Ajuda-me a ter o dinheiro necessário para acabar o mês com minha família, que não me falte...”: isto é justo. Mas “ajuda-me a ter muito dinheiro para ter muito poder”, isto não é correto. Pode-se pedir, mas.... Porque se está pedindo algo que vai pelo caminho da mundanidade, o poder do mundo. Jesus falou tanto, no final da Ceia, com os discípulos e disse que rezou por eles ao Pai. E o que pediu ao Pai? Não para tirá-los do mundo, mas para protegê-los do espírito do mundo. O espírito do mundo é aquilo que não devemos pedir; as coisas que são do espírito do mundo: o espírito da soberba, do poder para dominar... isto não é... Se deve pedir coisas que constroem o mundo, que criam fraternidade e que tragam a paz, que deem coisas boas; mas “ajuda-me a matar a minha mulher”, não pode”.
Die Zeit: O mafioso faz o sinal da cruz antes de matar...
Papa Francisco: “Sim, sim. Isto é uma doença. É uma doença religiosa, sim, e usa a religião, também fazem isto os mafiosos da América Latina. Se dizem cristãos e para resolver os problemas pagam um matador de aluguel, e depois vão à Igreja”.
Die Zeit: Ao ouvir estas coisas o senhor se embrabece?
Papa Francisco:  “Sim, um pouco. Mas fico brabo quando a Igreja, a Santa Madre Igreja, minha mãe, a minha Esposa, não dá um testemunho de fidelidade ao Evangelho. Isto me faz mal”.
Die Zeit: Ainda faz mal para o senhor? Neste momento, em todo o mundo, existe esta enorme preocupação que a coesão da sociedade não funcione mais. Temos uma onda de populismo, no geral de direita; temos fortes movimentos que ameaçam a democracia... Neste contexto, qual deve ser o  comportamento de um cristão?
Papa Francisco: “Sim... Para mim, a palavra populismo é equivocada, porque na América Latina tem um outro significado. Fiquei confuso, porque não entendia bem. Mas pense o senhor que no ano 1933, após a queda da República de Weimar: a Alemanha estava desesperada, a crise econômica de 30 era... e um jovem disse “eu posso, eu posso, eu posso!”, mas... e se chamava Adolf, e isto acabou assim, não?  Conseguiu convencer o povo de que ele podia. Por trás dos populismos sempre existe um messianismo, sempre. É também uma justificativa: preservamos a identidade do povo”.
Die Zeit: Um messianismo na falta de outro verdadeiro testemunho...
Papa Francisco “...de um verdadeiro testemunho. Talvez, não?”.
Die Zeit: Por que faltam os grandes modelos políticos?
Papa Francisco: “Quando os grandes do pós-guerra imaginaram a unidade europeia – pense em Schuman, Adenauer – imaginaram uma coisa não populista: imaginaram uma fraternidade de toda a Europa, do Atlântico aos Urais. E estes são os grandes líderes – os grandes líderes – que são capazes de levar em frente o bem do país em estarem eles no centro. Sem serem messias. O populismo é ruim, e no final acaba mal, como nos mostra o século passado”.
Die Zeit: O senhor vê a situação de hoje semelhante aos anos 30, do século passado? Pois  o senhor usa até mesmo a palavra da terceira guerra mundial que estamos vivendo...
Papa Francisco: “Sim, sim. Isto é óbvio. Porque realmente está assim”.
Die Zeit: Em que sentido?
Papa Francisco:  “Mas...todo o mundo está em guerra, mas, pense na África”.
Die Zeit: Mas são conflitos menores...
Papa Francisco: “Por isto digo: a terceira guerra mundial em pedaços. Pense na Ucrânia, que está na Europa; pense na Ásia, pense no drama de Sindshar no Iraque, na pobre gente que foi expulsa... Mas por que falo em guerra? Isto se faz com as armas modernas e existe toda uma estrutura de fabricantes de armas que ajuda isto. É uma guerra. Mas – isto o sublinho – não quero dizer que esta situação seja a mesma de 33, não! Este é um exemplo que dei para explicar o populismo”.
Die Zeit: Mas o senhor está preocupado, neste momento, com a onda de populismo em todo o mundo?
Papa Francisco: “Ao menos na Europa sim. Um pouco. E o que penso sobre a Europa é isto que não quero dizer a mais e nem a menos do que eu disse nos três discursos (sobre) a Europa: os dois discursos em Estrasburgo e o terceiro quando recebi o Karlspreis, em Aachen, sim, que o recebi aqui, e havia tantos Chefes de governo, alguns de Estado, que vieram. Não gosto de receber honorificências: esta é a única que recebi porque insistiram. Disseram: “A Europa tem necessidade que o senhor nos diga alguma coisa”, e eu aceitei; mas os três antes de mim - Juncker, Martin Schutz e também o Prefeito de Aachen - disseram coisas mais duras do que eu, mais fortes, mas enérgicas”.
Die Zeit: O então Presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, falava da crise dos migrantes e refugiados, chamando-a de “desafio epocal”. Os valores da Europa sendo questionados, é urgente lutar pela Europa...
Papa Francisco: “Sim, foram também corajosos, hein!”
Die Zeit:  O senhor não se sente pressionado pelas expectativas que as pessoas de hoje tem por “homens-exemplo”, como é o seu caso?
Papa Francisco:  “Mas, eu não me sinto um homem excepcional.  Eu sinto que exageram com as expectativas, não fazendo justiça.  Eu não digo que sou um pobre, não; mas sou um homem comum que faz aquilo que pode, mas comum. Assim me sinto. E quando alguém diz: “Não, o senhor, o senhor é...”, isto não me faz bem”.
Die Zeit: O senhor diz isto, mesmo com o risco de desiludir muitos na Cúria que têm necessidade de um pai impecável?
Papa Francisco:  “Não existe um pai, existe somente um... Todos os pais são pecadores – graças a Deus – porque isto também nos encoraja a ir em frente e dar a vida, nesta época de orfandade, onde existe necessidade de paternidade. E eu sou um pecador, sou limitado. Mas não se esqueça que a idealização de uma pessoa é uma forma sutil de agressão, é um caminho para agredir sutilmente uma pessoa. E quando me idealizam, me sinto agredido”.
(...)
Die Zeit: Os ataque contra o senhor que provêm do Vaticano, lhe fazem mal pessoalmente?
Papa Francisco: “Não. Sobre isto eu farei uma confissão sincera. Desde o momento que fui eleito Papa não perdi a paz. Entendo que meu modo de agir não agrada a alguns, também justifico isto: existem tantos modos de pensar; é também lícito, é também humano e também uma riqueza”.
Die Zeit: É uma riqueza os cartazes que apareceram em Roma, acusando o senhor de não ser misericordioso? O L’Osservatore Romano falso onde o senhor responde “sim e não”, é uma riqueza, na sua opinião?
Papa Francisco: “O L’Osservatore Romano falso, não; mas o ‘romanaccio’ que havia naqueles cartazes, era belíssimo! Era um ‘romanaccio’, culto. Aquilo não foi escrito por alguém da rua!”.
Die Zeit: Mas foi escrito por alguém daqui?
Papa Francisco: “Não: alguém culto (risos). Mas aquele ‘romanaccio’ era belíssimo!”.
Die Zeit: É interessante que o senhor consiga rir a respeito disto...
Papa Francisco: “Mas sim! Eu, uma das coisas que rezo todos os dias com a oração de São Thomas Morus (Tomás More): peço o senso de humor. E o Senhor não me tirou a paz e me dá muito senso de humor. Não cheguei ainda a rir como o maravilhoso Padre Peter Hans Kolvenbach, por 25 anos Geral dos Jesuítas. Ele tinha um senso de humor, mas sempre construtivo e positivo, não?!”.
(...)
Die Zeit: Existe uma história muito complicada, mas que poderia ser reduzida. Na Ordem de Malta existe um Grão Chanceler, Albrecht von Boeselager. Foi acusado de não ter impedido a distribuição de preservativos em um projeto de ajuda em Myanmar. Acabou sendo demitido por um amigo do Cardeal Burke. O senhor rescindiu esta demissão.
Papa Francisco:  “Não, com a Ordem de Malta havia problemas, que ele talvez não tenha conseguido administrar, pois ele não era o único protagonista ali; e eu não tirei dele o título de Patrono da Ordem de malta: ele continua a ser Patrono de Malta. Mas ali havia necessidade de organizar a Ordem e por isto nomeei um delegado capaz de organizar, com um carisma que não tem o Cardeal Burle”.
Die Zeit: O senhor foi convidado pela Igreja Católica alemã, pela Igreja Protestante alemã, pelo Presidente da República alemã, para ir à Alemanha no Ano de Lutero, possivelmente este ano. O senhor irá?
Papa Francisco:  “Também a Chanceler convidou-me. Este ano será difícil, porque existem tantas viagens. Estudando, sim; mas com os luteranos quis antecipar esta questão e ir a Lund, na Suécia, no ano passado, para comemorar o início da comemoração dos 500 anos, e depois os 50 anos da fundação união católico-protestante, luterana. Existe uma agenda muito difícil este ano, para mim”.
Die Zeit:  Quem sabe existam países mais importantes, neste momento, como a Rússia a China...
Papa Francisco:  “Na Rússia não posso ir porque deveria ir também à Ucrânia. O importante seria ir no Sudão do Sul – coisa que não acredito possa fazer – estava em programa ir nos dois Congos: com Kabila as coisas não estão bem, acredito que não possa ir: mas irei sim, à Índia, Bangladesh, seguramente, Colômbia, depois um dia em Portugal, em Fátima, e depois acredito que há uma outra viagem em estudo, ao Egito. Parece que o calendário está cheio, não?”.
Die Zeit: Já que para a Alemanha não este ano. Em 2018, quem sabe?
Papa Francisco: “Não sei; não pensei ainda. Não foi programado”.
(...)
Die Zeit: Mas o senhor entende bem ao alemão, não?
Papa Francisco: “Se falado lentamente, consigo, porque “ohne Übung habe ich es verlernt” (sem exercício, perdi um pouco). Desculpe-me se não correspondi às suas expectativas”.
Die Zeit: Estão mais do que superadas as expectativas.
Papa Francisco: “Reze por mim”.
Fonte: NEWS VA

domingo, 29 de janeiro de 2017

BODAS DE PRATA PRESBITERAL - PADRE ENIROQUE BALLERINI

No dia 26 de janeiro de 2017 às 19 horas na Paróquia são Judas Tadeu no Jardim Casqueiro em Cubatão, aconteceu Missa de Bodas de Prata pelos 25 anos de Ordenação Presbiteral do Padre Eniroque  Ballerini Pároco e Diretor Espiritual Diocesano do Encontro de Casais com Cristo E.C.C. . O Bispo diocesano Dom Tarcísio Scaramussa foi o celebrante, Bispo Emérito Dom Jacyr Francisco, Padres, Diáconos, Seminaristas, comunidades e amigos estiveram presente na celebração.    







 
                                                                                                                                                                                                                                                                                      Fotos: Diocese de Santos/ Facebook
                                                                                 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

CATEQUESE DO PAPA: ORAÇÃO E ESPERANÇA

brasão do Papa Francisco
CATEQUESE
Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Boletim da Santa Sé
Tradução livre: Jéssica Marçal
Queridos irmãos e irmãs, bom dia,
Na Sagrada Escritura, entre os profetas de Israel, aparece uma figura um pouco anormal, um profeta que tenta escapar do chamado do Senhor rejeitando colocar-se a serviço do plano divino da salvação. Trata-se do profeta Jonas, de quem se narra a história em um pequeno livro de apenas quatro capítulos, uma espécie de parábola portadora de um grande ensinamento, aquele da misericórdia de Deus que perdoa.
Jonas é um profeta “em saída” e também um profeta em fuga! É um profeta em saída que Deus envia “à periferia”, em Nínive, para converter os moradores daquela grande cidade. Mas Nínive, para um israelita como Jonas, representava uma realidade ameaçadora, o inimigo que colocava em perigo a própria Jerusalém e, portanto, a destruir, não a salvar. Por isso, quando Deus manda Jonas para rezar naquela cidade, o profeta, que conhece a bondade do Senhor e o seu desejo de perdoar, procura escapar da sua tarefa e foge.
Durante a sua fuga, o profeta entra em contato com alguns pagãos, os marinheiros do navio no qual ele embarcou para se afastar de Deus e da sua missão. E foge para longe, porque Nínive ficava na região do Iraque e ele foge para a Espanha, foge sério. E é justamente o comportamento daqueles homens pagãos, como depois será dos moradores de Nínive, que nos permite hoje refletir um pouco sobre esperança que, diante do perigo e da morte, se exprime em oração.
De fato, durante a travessia do mar, surge uma tremenda tempestade, e Jonas desce para o porão do navio e se abandona ao sono. Os marinheiros, em vez disso, vendo-se perdidos, “invocaram cada um o próprio deus”: eram pagãos (Jon 1, 5). O capitão do navio acorda Jonas dizendo-lhe: “O que fazes dormindo? Levanta-te, invoca o teu Deus! Talvez Deus vai pensar em nós e não pereceremos” (Jon 1, 6).
A reação destes “pagãos” é a justa reação diante da morte, diante do perigo; porque é então que o homem faz completa experiência da própria fragilidade e da própria necessidade de salvação. O instintivo horror de morrer desperta a necessidade de esperar no Deus da vida. “Talvez Deus pensará em nós e não pereceremos”: são as palavras da esperança que se torna oração, aquela súplica cheia de angústia que sai dos lábios do homem diante de um iminente perigo de morte.
Muito facilmente nós desdenhamos o dirigir-se a Deus na necessidade como se fosse apenas uma oração interessada, e por isso imperfeita. Mas Deus conhece a nossa fraqueza, sabe que nos recordamos Dele para pedir ajuda, e com o sorriso indulgente de um pai, Deus responde com benevolência.
Quando Jonas, reconhecendo as próprias responsabilidades, se joga ao mar para salvar os seus companheiros de viagem, a tempestade se acalma. A morte iminente levou aqueles homens pagãos à oração, fez com que o profeta, apesar de tudo, vivesse a própria vocação a serviço dos outros aceitando sacrificar-se por eles, e agora conduz os sobreviventes ao reconhecimento do verdadeiro Senhor e ao louvor. Os marinheiros, que tinham rezado com medo dirigindo-se aos seus deuses, agora, com sincero temor do Senhor, reconhecem o verdadeiro Deus e oferecem sacrifícios e votos. A esperança que os tinha induzido a rezar para não morrer, se revela ainda mais poderosa e trabalha uma realidade que vai também além do que eles esperavam: não somente não perecem na tempestade, mas se abrem ao reconhecimento do verdadeiro e único Senhor do céu e da terra.
Sucessivamente, também os moradores de Nínive, diante da perspectiva de serem destruídos, rezarão, movidos pela esperança no perdão de Deus. Farão penitência, invocarão o Senhor e se converterão a Ele, a começar pelo rei que, como o capitão do navio, dá voz à esperança dizendo: “Quem sabe Deus se arrependerá […] e deixará de nos perder!” (Jon 3, 9). Também para eles, como para a tripulação na tempestade, ter enfrentado a morte e ter saído salvos os levou à verdade. Assim, sob a misericórdia divina e ainda mais à luz do mistério pascal, a morte pode se tornar, como foi para São Francisco de Assis, “nossa irmã morte” e representar, para cada homem e para cada um de nós, a surpreendente ocasião de conhecer a esperança e de encontrar o Senhor. Que o Senhor nos faça entender essa relação entre oração e esperança. A oração te leva adiante na esperança e quando as coisas se tornam escuras, é preciso mais oração! E haverá mais esperança. Obrigado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

CATEQUESE DO PAPA: RISCO DA ESPERANÇA EM FALSOS ÍDOLOS

brasão do Papa Francisco
CATEQUESE
Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
No passado mês de dezembro e na primeira parte de janeiro, celebramos o tempo do Advento e depois aquele do Natal: um período do ano litúrgico que desperta no povo de Deus a esperança. Esperar é uma necessidade primária do homem: esperar o futuro, acreditar na vida, o chamado “pensar positivo”.
Mas é importante que tal esperança seja colocada naquilo que realmente pode ajudar a viver e a dar sentido à nossa existência. É por isso que a Sagrada Escritura nos adverte contra as falsas esperanças que o mundo nos apresenta, desmascarando sua inutilidade e mostrando sua insensatez. E o faz de vários modos, sobretudo denunciando a falsidade dos ídolos em que o homem é continuamente tentado a colocar a sua confiança, fazendo-lhe objeto de sua esperança.
Em particular, os profetas e sábios insistem nisso, tocando um ponto mais importante do caminho de fé do crente. Porque fé é confiar-se a Deus – quem tem fé, se confia a Deus – mas vem o momento em que, confrontando-se com as dificuldades da vida, o homem experimenta a fragilidade daquela confiança e sente a necessidade de certezas diversas, de seguranças tangíveis, concretas. Eu confio em Deus, mas a situação é um pouco ruim e eu preciso de uma certeza um pouco mais concreta. E ali está o perigo! E então somos tentados a procurar consolos também efêmeros, que parecem encher o vazio da solidão e aliviar o cansaço do crente. E pensamos poder encontrá-los na segurança que pode dar o dinheiro, nas alianças com os poderosos, na mundanidade, nas falsas ideologias. Às vezes os procuramos em um deus que possa se dobrar às nossas exigências e magicamente intervir para mudar a realidade e torná-la como nós a queremos; um ídolo, de fato, que como tal não pode fazer nada, impotente e enganador. Mas nós gostamos dos ídolos, gostamos tanto! Uma vez, em Buenos Aires, precisei ir a outra igreja, mil metros, mais ou menos. E o fiz caminhando. E há um parque no meio, e no parque havia pequenas mesas, mas tantas, tantas, onde estavam sentados os cartomantes. Estava cheio de gente, fazia até fila. Você lhe dava a mão e ele começava, mas o discurso era sempre o mesmo: há uma mulher na tua vida, tem uma sombra que vem, mas tudo andará bem…E depois, pagava a eles. E isso te dá segurança? É a segurança de uma – permita-me a palavra – de uma estupidez. Ir à cartomante que lê as cartas: isso é um ídolo! Este é o ídolo, e quando somos tão apegados a eles: compramos falsas esperanças. Em vez daquela que é a esperança da gratuitidade, que nos trouxe Jesus Cristo, gratuitamente dando a vida por nós, naquelas às vezes não confiamos tanto.
Um Salmo cheio de sabedoria nos retrata de modo muito sugestivo a falsidade desses ídolos que o mundo oferece à nossa esperança e nos quais os homens de todo tempo são tentados a confiar. É o Salmo 115, que recita assim:
“Seus ídolos são ouro e prata,
obra das mãos do homem.
Têm boca e não falam,
têm olhos e não veem,
têm orelhas e não ouvem,
têm nariz e não sentem cheiro.
Suas mãos não tocam,
seus pés não caminham;
de sua garganta não saem sons! 
Torna-se como eles quem os fabrica
e quantos neles confiam!” (vv. 4-8).

O salmista nos apresenta, de modo também um pouco irônico, a realidade absolutamente efêmera destes ídolos. E devemos entender que não se trata somente de figuras feitas de metal ou de outro material, mas também daquelas construídas com a nossa mente, quando confiamos em realidades limitadas que transformamos em absolutas, ou quando reduzimos Deus aos nossos esquemas e às nossas ideias de divindade; um deus que se assemelha a nós, compreensível, previsível, justamente como os ídolos de que fala o Salmo. O homem, imagem de Deus, fabrica um deus à sua própria imagem, e é também uma imagem mal alcançada: não sente, não age e, sobretudo, não pode falar. Mas nós ficamos mais felizes de ir aos ídolos do que ao Senhor. Ficamos tantas vezes mais contentes com a esperança efêmera que te dá este falso ídolo, que com a grande esperança segura que nos dá o Senhor.
À esperança em um Senhor da vida que com a sua Palavra criou o mundo e conduz as nossas existências, se contrapõe a confiança em simulacros mudos. As ideologias com a sua pretensão de absoluta, as riquezas – e este é um grande ídolo – o poder e o sucesso, a vaidade, com a sua ilusão de eternidade e de onipotência, valores como a beleza física e a saúde, quando se tornam ídolos aos quais sacrificar qualquer coisa, são todas realidades que confundem a mente e o coração, e em vez de favorecer a vida conduzem à morte. É ruim ouvir e causa dor na alma o que uma vez, há anos, ouvi, na diocese de Buenos Aires: uma mulher, muito bonita, se vangloriava da beleza, comentava, como se fosse natural: “É sim, precisei abortar porque a minha imagem é muito importante”. Estes são os ídolos, e te levam no caminho errado e não te dão felicidade.
A mensagem do Salmo é muito clara: se se coloca a esperança nos ídolos, se torna como eles: imagens vazias com mãos que não tocam, pés que não caminham, bocas que não podem falar. Não há mais nada a dizer, se torna incapaz de ajudar, mudar as coisas, incapaz de sorrir, de doar-se, incapaz de amar. E também nós, homens de Igreja, corremos este risco quando nos “mundanizamos”. É preciso permanecer no mundo mas defender-se das ilusões do mundo, que são estes ídolos que mencionei.
Como prossegue o Salmo, é preciso confiar e esperar em Deus e Deus dará benção.
Assim diz o Salmo:
“Israel, confia no Senhor […]
Casa de Arão, confia no Senhor […]
Vós que temeis o Senhor, confiem no Senhor […]

O Senhor se lembra de nós, nos abençoa” (vv. 9.10.11.12). Sempre o Senhor se lembra. Também nos momentos ruins, ele se lembra de nós. E esta é a nossa esperança. E a esperança não desilude. Nunca. Nunca. Os ídolos desiludem sempre: são fantasias, não são realidade.
Eis a maravilhosa realidade da esperança: confiando no Senhor se torna como Ele, a sua benção nos transforma em seus filhos, que partilham a sua vida. A esperança em Deus nos faz entrar, por assim dizer, no alcance de sua memória, da sua memória que nos abençoa e nos salva. E então pode jorrar o aleluia, o louvor ao Deus vivo e verdadeiro, que por nós nasceu de Maria, morreu na cruz e ressuscitou na glória. E neste Deus nós temos esperança, e este Deus – que não é um ídolo – não desilude jamais.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

PRIMEIRA CATEQUESE DO PAPA FRANCISCO EM 2017

brasão do Papa Francisco
CATEQUESE
Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 4 de janeiro de 2016
Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Na catequese de hoje, gostaria de contemplar com vocês uma figura de mulher que nos fala da esperança vivida no pranto. A esperança vivida no pranto. Trata-se de Raquel, a esposa de Jacó e a mãe de José e Benjamin, aquela que, como conta o Livro do Gênesis, morre ao dar à luz ao seu segundo filho, isso é, Benjamin.
O profeta Jeremias faz referência a Raquel dirigindo-se aos israelitas no exílio para consolá-los, com palavras cheias de emoção e de poesia; isso é, toma o pranto de Raquel mas dá esperança:
“Eis o que diz o Senhor:

ouve-se em Ramá uma voz,
lamentos e amargos soluços.
É Raquel que chora os filhos,
recusando ser consolada, porque já não existem” (Jer 31, 15).

Nestes versículos, Jeremias apresenta esta mulher do seu povo, a grande matriarca da sua tribo, em uma realidade de dor e pranto, mas junto com uma perspectiva de vida impensada. Raquel, que no relato do Gênesis morreu no parto e tinha assumido aquela morte para que o filho pudesse viver, agora, em vez disso, representada pelo profeta como viva em Ramá, ali onde se reuniam os deportados, chora pelos filhos que em um certo sentido são mortos indo ao exílio; filhos que, como ela mesma disse, “já não existem mais”, desapareceram para sempre.
E por isso Raquel não quer ser consolada. Esta recusa exprime a profundidade da sua dor e a amargura do seu pranto. Diante da tragédia da perda dos filhos, uma mãe não pode aceitar palavras ou gestos de consolo, que são sempre inadequadas, nunca capazes de aliviar a dor de uma ferida que não pode e não quer ser curada. Uma dor proporcional ao amor.
Toda mãe sabe tudo isso; e são tantas, também hoje, as mães que choram, que não se conformam com a perda de um filho, inconsoláveis diante de uma morte impossível de aceitar. Raquel personifica em si a dor de todas as mães do mundo, de todo tempo, e das lágrimas de todo ser humano que chora perdas irreparáveis.
Esta recusa de Raquel que não quer ser consolada nos ensina também quanta delicadeza nos é pedida diante da dor dos outros. Para falar de esperança a quem está desesperado, é preciso partilhar o seu desespero; para enxugar uma lágrima da face de quem sofre, é preciso unir ao seu o nosso pranto. Só assim as nossas palavras podem ser realmente capazes de dar um pouco de esperança. E se não posso dizer palavras assim, com o pranto, com a dor, melhor o silêncio; o carinho, o gesto e nada de palavras.
E Deus, com a sua delicadeza e o seu amor, responde ao pranto de Raquel com palavras verdadeiras, não falsas; assim prossegue o texto de Jeremias:
“Eis o que diz o Senhor:

Cessa de gemer, enxuga tuas lágrimas!
Tuas penas terão a recompensa – oráculo do Senhor.
Voltarão (teus filhos) da terra inimiga.
Desponta em teu futuro a esperança – oráculo do Senhor.
Teus filhos voltarão à sua terra”. (Jer 31, 16-17).

Justamente pelo choro da mãe, há ainda esperança para os filhos, que voltarão a viver. Esta mulher, que tinha aceitado morrer, no momento do parto, para que o filho pudesse viver, com o seu pranto é agora princípio de vida nova para os filhos exilados, prisioneiros, distantes da pátria. À dor e ao pranto amargo de Raquel, o Senhor responde com uma promessa que agora pode ser para ela motivo de verdadeiro consolo: o povo poderá voltar do exílio e viver na fé, livre, a própria relação com Deus. As lágrimas geraram esperança. E isso não é fácil de entender, mas é verdade. Tantas vezes, na nossa vida, as lágrimas semeiam esperança, são sementes de esperança.
Como sabemos, este texto de Jeremias é depois retomado pelo evangelista Mateus e aplicado ao massacre dos inocentes (cfr 2, 16-18). Um texto que nos coloca diante da tragédia do assassinato de seres humanos indefesos, do horror do poder que despreza e suprime a vida. As crianças de Belém morrem por causa de Jesus. E Ele, cordeiro inocente, seria depois morto, por sua vez, por todos nós. O Filho de Deus entrou na dor dos homens. Não se pode esquecer isso. Quando alguém se dirige a mim e me faz perguntas difíceis, por exemplo: “Diga-me, padre, por que as crianças sofrem?”, realmente, eu não sei o que responder. Somente digo: “Olha para o crucifixo: Deus nos deu o seu Filho, Ele sofreu, e talvez ali encontrarás uma resposta”. Mas respostas daqui [mostra a sua cabeça] não há. Somente olhando para o amor de Deus que dá seu Filho que oferece a sua vida por nós, pode indicar qualquer caminho de consolação. E por isso dizemos que o Filho de Deus entrou na dor dos homens; partilhou e acolheu a morte; a sua Palavra é definitivamente palavra de consolo, porque nasce do pranto.
E na cruz será Jesus, o Filho que irá morrer, a dar uma nova fecundidade à sua mãe, confiando-a ao discípulo João e tornando-a mãe do povo crente. A morte foi vencida e alcançou, assim, o cumprimento da profecia de Jeremias. Também as lágrimas de Maria, como aquela de Raquel, geraram esperança e vida nova. Obrigado.
Apelo do Santo Padre
Ontem chegaram do Brasil notícias dramáticas do massacre ocorrido no presídio de Manaus, onde um violentíssimo confronto entre facções rivais causou dezenas de mortes. Exprimo dor e preocupação pelo que aconteceu. Convido a rezar pelos falecidos, pelos seus familiares, por todos os detentos daquele presídio e por quantos ali trabalham. E renovo o apelo para que os institutos penitenciários sejam lugares de reeducação e de reinserção social, e as condições de vida dos detentos sejam dignas de pessoas humanas.
Convido-vos a rezar por estes detentos mortos e vivos e também por todos os detentos do mundo, para que os presídios sejam para reinserir e não sejam superlotados; sejam lugar de reinserção. Rezemos à Nossa Senhora, Mãe dos detentos: Ave Maria…